Empresa referida por Duarte Lima já tinha sido apanhada na Operação Furacão


A empresa suíça Akoya Asset Management, que estará no centro de uma rede que se dedicava ao branqueamento de capitais e à fuga ao fisco e cujos três principais responsáveis foram detidos na quinta-feira numa operação conduzida pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), já tinha sido apanhada num outro processo similar, a Operação Furação, investigada pelo mesmo procurador, Rosário Teixeira

O Ministério Público investigava há largos meses as movimentações suspeitas da empresa suíça com a ajuda de peritos da inspecção tributária do Porto e de Braga, tendo há umas semanas o advogado e ex-líder parlamentar do PSD Duarte Lima implicado o alegado líder da rede, Michel Canals, presidente da Akoya Asset Management. Em causa pode estar uma fraude que atinge os mil milhões de euros.

Foi a inspecção tributária de Braga que, em 2004, deu origem à Operação Furacão, na sequência de uma operação de rotina a uma empresa do sector têxtil da zona de Barcelos, onde foi descoberto um esquema de fraude promovido por várias entidades financeiras utilizado por centenas de empresas para fugir aos impostos, muitas das quais ligadas aos principais grupos económicos portugueses.

Michel Canals era director executivo da União de Bancos Suíços (UBS), um dos maiores bancos do mundo, onde supervisionou a gestão da fortuna do milionário Lúcio Tomé Feteira. Olímpia Feteira, filha do magnata, acredita que Michel Canals ajudou Rosalina Ribeiro, companheira e secretária do pai, a "roubar" o dinheiro que este tinha na Suíça, parte do qual foi parar às mãos de Duarte Lima.

"Em Fevereiro de 2001, uns meses depois de o meu pai ter morrido, desloquei-me à Suíça para me informar sobre o conteúdo das contas do meu pai. Quem me atendeu foi Michel Canals, que não me queria dar os papéis nem por nada", conta Olímpia Feteira. Após uma semana de insistência, o suíço, que fala bem português, acabou por dar uma parte da documentação à filha do milionário. "Ele estava nervosíssimo e desde logo desconfiei dele. Só mais tarde, no âmbito de uma queixa-crime que fiz contra Rosalina Ribeiro, vim a saber que nessa altura ela já tinha esvaziado aquelas contas, o que Canals saberia", acredita.

Tal só foi possível porque pouco antes da morte de Tomé Feteira, em Dezembro de 2000, foi aberta na UBS uma conta conjunta com Rosalina. "Sempre acreditei que a assinatura do meu pai tinha sido falsificada na abertura daquela conta", afirma Olímpia. E acrescenta: "Acredito que o próprio Canals esteve envolvido nisso, já que o próprio me confirmou ter estado em casa da Rosalina, onde o meu pai estava muito doente, um mês antes da sua morte."

A filha do milionário recorda-se que era Canals quem dirigia a sucursal da UBS em Lisboa, um escritório de representação que fechou em 2009, dois anos e meio depois de ter começado a operar no mercado português, e diz que o suíço foi "empurrado" para sair do banco.

O facto de mais uma vez o DCIAP ter preterido a Polícia Judiciária no âmbito de uma acção de combate à criminalidade económico-financeira está entretanto a gerar um grande desconforto naquela última instituição, especialmente na Unidade Nacional de Combate à Corrupção. É este departamento que tem vindo a investigar a alegada burla de Duarte Lima ao BPN e os seus agentes não compreendem como foram deixados à margem deste novo inquérito, cuja existência desconheciam. Os últimos dois autos de declarações de Duarte Lima - um depoimento prestado apenas perante o procurador Rosário Teixeira e outro já na presença do juiz Carlos Alexandre - ainda não foram comunicados à PJ.

Fonte: Público