Segunda volta histórica entre Seguro e Ventura repete cenário de há 40 anos com quadro político inverso

Enquanto em 1986 a direita estava unida e a esquerda dividida, agora a direita domina dois terços do parlamento mas dispersou-se por três candidaturas diferentes, enquanto a esquerda concentrou votos em Seguro.

As eleições presidenciais de domingo ditaram uma segunda volta entre António José Seguro e André Ventura, cenário que só tinha acontecido uma vez, há 40 anos, mas com um quadro político oposto, entre Freitas do Amaral e Mário Soares.

Nas presidenciais de 1986, os partidos à direita estavam unidos em torno de Freitas do Amaral, apoiado por PSD e CDS, que reuniu mais de 46,31% dos votos expressos, insuficientes, porém, para vencer à primeira volta, enquanto o espaço político da esquerda, embora com votação maioritária, se dividiu entre três candidaturas.

O antigo primeiro-ministro Mário Soares, apoiado pelo PS, passou à segunda volta, com 25,43% -- em que depois saiu vencedor, com 51,18%, derrotando Freitas. Em terceiro lugar ficou Salgado Zenha, que saiu do PS e se candidatou com apoios do PRD, do então Presidente Ramalho Eanes e do PCP, e em quarto Maria de Lourdes Pintasilgo, independente a quem a UDP declarou apoio.

As eleições de domingo, em contraste, aconteceram num quadro em que a direita representa mais de dois terços do parlamento, o que se refletiu na votação nas presidenciais, mas os principais partidos deste hemisfério apoiaram três candidaturas diferentes, enquanto à esquerda houve maior concentração de votos no ex-secretário-geral do PS António José Seguro, que acabou em primeiro lugar, com de 31,1%.

A candidatura de António José Seguro, que o PS veio a apoiar, foi desta vez a única da área do seu partido e ficou à frente de André Ventura, presidente do Chega, que teve 23,5%, com quem irá disputar uma segunda volta. Os outros candidatos apoiados pelos partidos à direita foram João Cotrim Figueiredo, da IL, o terceiro mais votado, e Luís Marques Mendes, do PSD, que ficou em quinto.

Em comparação com as presidenciais de 1986, que foram disputadas a quatro, após a desistência de Ângelo Veloso, candidato apoiado pelo PCP, em favor de Salgado Zenha, as eleições de domingo tiveram mais do dobro dos candidatos, 11, no total, um dos quais o independente Henrique Gouveia e Melo, que aparecia inicialmente destacado nos estudos de opinião.

Segundo os resultados provisórios divulgados pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, Henrique Gouveia e Melo, ex-chefe do Estado-Maior da Armada, que se apresentou como estando acima dos partidos, foi o quarto mais votado, com 12,3% dos votos.

Quanto aos partidos à esquerda do PS, que nesta legislatura somam 10 deputados na Assembleia da República, menos de 5% do hemiciclo, obtiveram juntos nestas presidenciais ainda menor percentagem dos votos expressos.

Catarina Martins, candidata apoiada pelo BE, ficou em sexto, com 2,06%. O PCP, atualmente longe da expressão eleitoral que teve nas primeiras décadas da democracia, apoiou nestas eleições António Filipe, que ficou em sétimo lugar, com 1,64%.

O Livre, que é destes três o partido que agora tem maior representação parlamentar, apoiou Jorge Pinto, que ainda durante a campanha sugeriu aos eleitores que votassem noutros candidatos defensores da Constituição, contra André Ventura, e acabou em nono lugar, com 0,68%.

Fonte: Sic Notícias
Foto: Armando Franca/AP