"É uma situação grave." Internamentos sociais de crianças em psiquiatria precisam de "solução mágica"

Por decisão dos tribunais, há cada vez mais crianças internadas em alas psiquiátricas hospitalares apenas por falta de outro tipo de respostas sociais. O Colégio de Psiquiatria da Infância e da Adolescência da Ordem dos Médicos alerta para as graves consequências como é o caso de isolamento proveniente de rotinas rígidas.

O internamento de crianças em unidades de pedopsiquiatria nos hospitais não é um problema inédito, mas tem vindo a agravar-se. O jornal Expresso avançou esta sexta-feira que são cada vez mais as crianças que vivem nestas condições. Por decisão judicial vinda diretamente dos tribunais, há crianças que são colocadas nos serviços de psiquiatria, uma vez que há falta de outras respostas sociais, isto é, não existem vagas suficientes em instituições de acolhimento residencial adequadas a estes casos.

Os menores em causa são rejeitados pelas famílias ou retirados aos pais para sua proteção. Na maioria dos casos, apresentam défice cognitivo, autismo ou problemas emocionais e chegam a ficar mais de dois anos internados sem que precisem de tratamentos hospitalares. Em declarações à TSF, Joana Calejo Jorge, presidente do Colégio de Psiquiatria da Infância e da Adolescência da Ordem dos Médicos, assume que é uma "situação grave" com importantes consequências para a vida destas crianças.

Isto porque se trata de um "contexto muito especializado" que é "exclusivamente reservado a situações agudas". Explica que as crianças internadas em psiquiatria, e que não precisem de tais cuidados, ficam automaticamente expostas a uma liberdade condicionada - "não podem sair livremente, há limitação de visitas, são afastadas das escolas e dos seus pares", e estão sujeitas a "rotinas rígidas num ambiente fechado". Joana Calejo Jorge destaca ainda que estas crianças são obrigadas a conviver com outros menores que estão internados pelas razões certas. Ou seja, estão, de facto, "em crise e em descompensação psicopatológica". Por outro lado, o trabalho dos funcionários dos hospitais também fica comprometido, considerando que fica "bastante reduzida" a capacidade de "dar resposta aos que verdadeiramente precisam".

"Isto é totalmente inadequado e prejudicial", alerta Joana Calejo Jorge.

Na perspetiva da presidente do Colégio de Psiquiatria da Infância e da Adolescência da Ordem dos Médicos, este é um "problema estrutural" diretamente relacionado com a falta de outras respostas que incluem: "recursos humanos, capacidades de instituições de acolhimento e articulação entre vários serviços". Estas complexas questões "ultrapassam em muito a Ordem dos Médicos", mas que tem tentado "alertar, sensibilizar e evitar alguns conflitos éticos e deontológicos" relacionados com estes internamentos.

Apesar de a solução para esta problemática ser urgente, é muito difícil encontrá-la em tempo útil. Joana Calejo Jorge acredita que "a solução concreta seria mágica", na medida em que seria necessário "surgirem, de repente, respostas no sistema de acolhimento residencial especializado para estes jovens".

A presidente do Colégio de Psiquiatria da Infância e da Adolescência da Ordem dos Médicos confirma que Lisboa e Vale do Tejo é o território mais afetado por estes internamentos, com 25% das camas ocupadas. Confessa que a Unidade Local de Saúde de São José, ao qual pertence o Hospital Dona Estefânia, onde está o internamento de pedopsiquiatria, "tem sido muito penalizada".

Fonte: TSF
Foto: Pedro Correia (arquivo)